O CAÇADOR DE CREPÚSCULOS[1]
Se eu fosse cineasta me
dedicaria à caça de crepúsculos. Tenho tudo planejado, menos o capital
necessário para o safári, porque um crepúsculo não se deixa caçar assim de
qualquer jeito, quero dizer que às vezes, começa pouquinha coisa e justamente
quando é abandonado saem todas as suas penas, ou inversamente, é um desperdício
cromático e de repente é como um papagaio ensaboado e, nos dois casos, é bom
ter uma câmara com um ótimo filme colorido, gastos com viagem e pernoitadas
prévias, vigilância do céu e eleição do horizonte mais propício, coisas nadinha
baratas. De qualquer maneira, acredito que se fosse cineasta daria um jeito
para caçar crepúsculos, na realidade um só crepúsculo, mas para chegar ao
crepúsculo definitivo, teria que filmar quarenta ou cinquenta, porque se fosse
cineasta eu teria as mesmas exigências que tenho com as palavras, as mulheres
ou a geopolítica.
Não é assim e me
consolo imaginando o crepúsculo já capturado, dormindo em sua longa espiral
enlatada. Meu plano: não só a caça, mas o retorno do crepúsculo aos meus
semelhantes que pouco sabem sobre a sua existência, refiro-me às pessoas da
cidade que veem o pôr do sol, se o veem, atrás do prédio dos correios, dos apartamentos
do outro lado ou em horizontes superficiais das antenas televisivas e faróis de
iluminação. O filme seria silencioso, ou com uma trilha sonora que gravaria
apenas os sons contemporâneos do crepúsculo filmado, provavelmente algum latido
de cachorro ou zumbido de moscas, eventualmente um rebanho ou um barulho de
onda, se o crepúsculo estiver no mar.
Por experiência e um
relógio de pulso sei que um bom crepúsculo não dura mais de vinte minutos entre
o clímax e o anticlímax, duas coisas que eliminaria para deixar tão somente seu
lento jogo interior, seu caleidoscópio de imperceptíveis mutações; se teria
assim um filme desses que chamam de documentais e que se passam antes de
Brigitte Bardot enquanto as pessoas vão se acomodando e observa a tela como se
estivessem no ônibus ou no metrô. Meu filme teria uma legenda (talvez uma voz off) dentro destas linhas: “O que você
vai ver é o crepúsculo do dia 7 de junho de 1976, filmado em X, com película M
e com a câmera fixa, sem interrupção durante Z minutos. O público fica
informado de que não acontece absolutamente nada fora do crepúsculo, no qual se
aconselha agir como se estivesse em sua casa e o que diabo quiser fazer; por
exemplo, observar o crepúsculo, virar as costas, falar com os demais, caminhar
por aí, etc. Lamentamos não poder sugerir que fume, coisa sempre tão linda de
se fazer na hora do crepúsculo, mas as condições medievais das salas de cinema
exigem, como sabem, a proibição deste hábito excelente. Por outro lado, não é
vetado dar um bom trago na garrafinha que o distribuidor de filmes vende na entrada”.
É impossível prever o
destino do meu filme; as pessoas vão ao cinema para esquecerem de si mesmas, e
um crepúsculo faz exatamente o contrário, é o momento em que podemos nos ver um
pouco mais nus, isto acontece comigo todas as vezes, e é doloroso e útil;
talvez outros também aproveitem, nunca se sabe.

