quinta-feira, 21 de julho de 2022

1 poema traduzido de Richard Brautigan

 

Propriedade Real


Tenho emoções

que são como jornais que

              leem-se por si mesmos.

 

Frequento-o algumas vezes

preso nos anúncios de ofertas.

 

Sinto-me como se fosse um anúncio

de uma casa assombrada à venda:

 

18 quartos

R$ 203.418,60

eu sou seu

com fantasmas e tudo.

terça-feira, 30 de março de 2021

1 Soneto Traduzido de Pablo Neruda

Thiago e Santiago



Thiago, A Santiago, como um mago vago,

Encantou com canto e poesia,

Sem San, fez Santiago, Thiago,

Uma pipa de sua passarinhada.


De Leste a Oeste de Santiago

Deu o Norte e o sul de sua alegria.

Muitos presentes nos deu, um só transtorno:

Carregou o coração de Anamaría.


Perdoamos-te porque com sua beleza,

De rosa em rosa e de estrela em estrela,

O Brasil o convocará para seu desfile.


Partirá, irmão, com a que escolheu,

Terás razão, mas estaremos tristes.

O que fará Santiago sem Thiago de Chile.


Santiago, 1963.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

1 conto traduzido de Julio Cortázar

 

O CAÇADOR DE CREPÚSCULOS[1]


Se eu fosse cineasta me dedicaria à caça de crepúsculos. Tenho tudo planejado, menos o capital necessário para o safári, porque um crepúsculo não se deixa caçar assim de qualquer jeito, quero dizer que às vezes, começa pouquinha coisa e justamente quando é abandonado saem todas as suas penas, ou inversamente, é um desperdício cromático e de repente é como um papagaio ensaboado e, nos dois casos, é bom ter uma câmara com um ótimo filme colorido, gastos com viagem e pernoitadas prévias, vigilância do céu e eleição do horizonte mais propício, coisas nadinha baratas. De qualquer maneira, acredito que se fosse cineasta daria um jeito para caçar crepúsculos, na realidade um só crepúsculo, mas para chegar ao crepúsculo definitivo, teria que filmar quarenta ou cinquenta, porque se fosse cineasta eu teria as mesmas exigências que tenho com as palavras, as mulheres ou a geopolítica.

Não é assim e me consolo imaginando o crepúsculo já capturado, dormindo em sua longa espiral enlatada. Meu plano: não só a caça, mas o retorno do crepúsculo aos meus semelhantes que pouco sabem sobre a sua existência, refiro-me às pessoas da cidade que veem o pôr do sol, se o veem, atrás do prédio dos correios, dos apartamentos do outro lado ou em horizontes superficiais das antenas televisivas e faróis de iluminação. O filme seria silencioso, ou com uma trilha sonora que gravaria apenas os sons contemporâneos do crepúsculo filmado, provavelmente algum latido de cachorro ou zumbido de moscas, eventualmente um rebanho ou um barulho de onda, se o crepúsculo estiver no mar.

Por experiência e um relógio de pulso sei que um bom crepúsculo não dura mais de vinte minutos entre o clímax e o anticlímax, duas coisas que eliminaria para deixar tão somente seu lento jogo interior, seu caleidoscópio de imperceptíveis mutações; se teria assim um filme desses que chamam de documentais e que se passam antes de Brigitte Bardot enquanto as pessoas vão se acomodando e observa a tela como se estivessem no ônibus ou no metrô. Meu filme teria uma legenda (talvez uma voz off) dentro destas linhas: “O que você vai ver é o crepúsculo do dia 7 de junho de 1976, filmado em X, com película M e com a câmera fixa, sem interrupção durante Z minutos. O público fica informado de que não acontece absolutamente nada fora do crepúsculo, no qual se aconselha agir como se estivesse em sua casa e o que diabo quiser fazer; por exemplo, observar o crepúsculo, virar as costas, falar com os demais, caminhar por aí, etc. Lamentamos não poder sugerir que fume, coisa sempre tão linda de se fazer na hora do crepúsculo, mas as condições medievais das salas de cinema exigem, como sabem, a proibição deste hábito excelente. Por outro lado, não é vetado dar um bom trago na garrafinha que o distribuidor de filmes vende na entrada”.

É impossível prever o destino do meu filme; as pessoas vão ao cinema para esquecerem de si mesmas, e um crepúsculo faz exatamente o contrário, é o momento em que podemos nos ver um pouco mais nus, isto acontece comigo todas as vezes, e é doloroso e útil; talvez outros também aproveitem, nunca se sabe.



[1] Título original: Cazador de crepúsculos, retirado do livro “Un Tal Lucas”, de 1979.



quarta-feira, 6 de maio de 2020

1 Poema traduzido de Michael McClure

CAMEO ONE
(Um Camafeu)
Michael McClure (Poeta da Geração Beat)

NÓS FOMOS
FOMOS. FOMOS
no buraco onde
alma incha
para
nada
deixando espaço sólido
onde perfis
de deuses e fadas
são esculpidos
e
finalmente
polido
pelo barulho de caminhões,
trovejantes
ondas
e o sabor das mangas.


quinta-feira, 21 de março de 2019

1 poema traduzido de PJ Harvey

A Vila Abandonada

Pensei ter visto uma garota
entre duas paredes marcadas.

Olhei para ela na casa branca
em que desmoronou lama de seu telhado decadente.

Em um prego na cozinha
um avental puído.

A casca de uma boneca de milho
pendurado no teto.

Eu perguntei à boneca o que tinha visto
Eu perguntei à boneca o que tinha visto

Procurei a menina no andar de cima. Encontrei
um pente, flores secas, uma bola de lã vermelha

desenrolada. Uma ameixeira cresceu pela janela,
na borda da janela uma fotografia

em preto e branco, mas a boca dela está faltando,
pereceu e se desfez em nada branco.

Eu perguntei à árvore o que tinha visto
Eu perguntei à árvore o que tinha visto



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

1 poema traduzido de Lee Ranaldo (guitarrista da Sonic Youth)

O FIM DA VIDA NA AMÉRICA

o fim da vida na américa
uma cadeia de significados quebrados
um tapete de tom
aquele corte na parede
onde a cadeira voou
sujeira debaixo das camas
notícias sem sentido
e silêncio entre nós.
anos engolidos
esperando que algo aconteça.


sábado, 15 de dezembro de 2018

1 poema traduzido de Maiakóvski

Coma abacaxis, engole perdiz
Seus últimos dias se aproximam, burguês.*

Tradução do inglês:

Eat pineapples, guzzle grouse
Your last days draws near, bourgeois.

* A tradução de Augusto de Campos foi feita diretamente do russo. Ao invés de usar "abacaxis", Campos preferiu utilizar a palavra "ananás".