quarta-feira, 26 de agosto de 2020

1 conto traduzido de Julio Cortázar

 

O CAÇADOR DE CREPÚSCULOS[1]


Se eu fosse cineasta me dedicaria à caça de crepúsculos. Tenho tudo planejado, menos o capital necessário para o safári, porque um crepúsculo não se deixa caçar assim de qualquer jeito, quero dizer que às vezes, começa pouquinha coisa e justamente quando é abandonado saem todas as suas penas, ou inversamente, é um desperdício cromático e de repente é como um papagaio ensaboado e, nos dois casos, é bom ter uma câmara com um ótimo filme colorido, gastos com viagem e pernoitadas prévias, vigilância do céu e eleição do horizonte mais propício, coisas nadinha baratas. De qualquer maneira, acredito que se fosse cineasta daria um jeito para caçar crepúsculos, na realidade um só crepúsculo, mas para chegar ao crepúsculo definitivo, teria que filmar quarenta ou cinquenta, porque se fosse cineasta eu teria as mesmas exigências que tenho com as palavras, as mulheres ou a geopolítica.

Não é assim e me consolo imaginando o crepúsculo já capturado, dormindo em sua longa espiral enlatada. Meu plano: não só a caça, mas o retorno do crepúsculo aos meus semelhantes que pouco sabem sobre a sua existência, refiro-me às pessoas da cidade que veem o pôr do sol, se o veem, atrás do prédio dos correios, dos apartamentos do outro lado ou em horizontes superficiais das antenas televisivas e faróis de iluminação. O filme seria silencioso, ou com uma trilha sonora que gravaria apenas os sons contemporâneos do crepúsculo filmado, provavelmente algum latido de cachorro ou zumbido de moscas, eventualmente um rebanho ou um barulho de onda, se o crepúsculo estiver no mar.

Por experiência e um relógio de pulso sei que um bom crepúsculo não dura mais de vinte minutos entre o clímax e o anticlímax, duas coisas que eliminaria para deixar tão somente seu lento jogo interior, seu caleidoscópio de imperceptíveis mutações; se teria assim um filme desses que chamam de documentais e que se passam antes de Brigitte Bardot enquanto as pessoas vão se acomodando e observa a tela como se estivessem no ônibus ou no metrô. Meu filme teria uma legenda (talvez uma voz off) dentro destas linhas: “O que você vai ver é o crepúsculo do dia 7 de junho de 1976, filmado em X, com película M e com a câmera fixa, sem interrupção durante Z minutos. O público fica informado de que não acontece absolutamente nada fora do crepúsculo, no qual se aconselha agir como se estivesse em sua casa e o que diabo quiser fazer; por exemplo, observar o crepúsculo, virar as costas, falar com os demais, caminhar por aí, etc. Lamentamos não poder sugerir que fume, coisa sempre tão linda de se fazer na hora do crepúsculo, mas as condições medievais das salas de cinema exigem, como sabem, a proibição deste hábito excelente. Por outro lado, não é vetado dar um bom trago na garrafinha que o distribuidor de filmes vende na entrada”.

É impossível prever o destino do meu filme; as pessoas vão ao cinema para esquecerem de si mesmas, e um crepúsculo faz exatamente o contrário, é o momento em que podemos nos ver um pouco mais nus, isto acontece comigo todas as vezes, e é doloroso e útil; talvez outros também aproveitem, nunca se sabe.



[1] Título original: Cazador de crepúsculos, retirado do livro “Un Tal Lucas”, de 1979.